Um em cada três caminhoneiros dirige sob efeito de drogas ilícitas

São 6 horas em Santos. Hora do motorista Antônio Ozanam, de 49 anos, sair com seu caminhão carregado de laranjas em direção à cidade de Santa Adélia, no Interior. O horário de chegada é por volta das 13 horas. Momento de descansar? Que nada! Em pouco mais de uma hora seu caminhão está carregado novamente para ele partir em viagem de volta rumo à cidade litorânea, chegando no seu destino na madrugada do dia seguinte, às 2 horas.

“A vida é corrida demais”, diz ele. Todos os dias, a mesma rotina, passando pela Rodovia Washington Luís, que ‘corta’ Araraquara. A folga só vem no domingo. “Chego para minha mulher e digo apenas ‘até mais, querida’. É o meu momento de descansar da luta de toda a semana”, diz.

Para dar conta dessa rotina exaustiva, Ozanam confessa fazer uso de drogas, mais especificamente o ‘rebite’, nome popular da anfetamina, uma das drogas mais consumidas por caminhoneiros.
“Poucos não se drogam. Faz parte da nossa rotina. Mas se não aceitar fazer isso, como vou sustentar meus dois filhos?”, relata o caminhoneiro, confessando em seguida que compra as drogas nos postos pelo caminho. “Os próprios frentistas vêm nos oferecer’.”

O preço do ‘rebite’ é aproximadamente R$ 50, a cartela com 20 comprimidos. Ozanam diz que nunca usou cocaína, mas conta que seu irmão, também caminhoneiro, é usuário assíduo. “Ele dirige de São Paulo a Belém, no Pará. O coitado cheira mais que dirige”, relata.

Amanda Rocha/Tribuna
O motorista de caminhão, Antônio Ozanam, revela que dirige cerca de 20 horas todos os dias, quase sempre sob efeito do ‘rebite’
Outro caminhoneiro, em um posto de Araraquara – que pediu para não ser identificado – confessou ter usado cocaína quando tinha que dirigir de São Paulo a Brasília, no Distrito Federal. “Já cheguei a dirigir 24 horas seguidas”, revela. “Só com a droga mesmo para aguentar essa viagem.”

Um terço deles
Dados do Ministério Público do Trabalho (MPT) revelam que 34% dos caminhoneiros usam algum tipo de droga durante o trabalho, ou seja, um terço deles.

Contando apenas os caminhoneiros que transportam cargas perecíveis, como frutas e legumes, esse número sobe para 55%, ou seja, mais da metade. É o caso de Ozanam, que transporta laranjas para o mercado municipal de Santos.

O que ainda é mais alarmante é o fato de 73% terem feito uso de cocaína, bem mais que o ‘rebite’, até então a droga mais popular no meio.

Dura Realidade
Os dados apresentados mostram um cenário desolador e preocupante, que ocorre em todo o estado.
O médico sanitarista Rodolpho Telarolli Jr., tanto a cocaína quanto a anfetamina causam danos ao sistema cardio circulatório e o uso em excesso pode ser uma causa para infartos e derrames.

Para Márcio Servino, presidente do Conselho Municipal Antidrogas, não só os caminhoneiros, mas vários profissionais que atuam nas madrugadas costumam usar esse tipo de droga ilícita para se manterem acordados. “O risco de dependência é grande”, alerta.

Ministério do Trabalho pede exames
Uma decisão do Ministério do Trabalho tornou obrigatório, na contratação e demissão de motoristas de ônibus e caminhões, a realização de exame toxicológico, que identifica o uso de drogas. O exame pode ser feito através da análise do fio de cabelo, unhas e pele para detectar diversos tipos de drogas e derivados. O exame é capaz de detectar substâncias usadas em um período de tempo de três meses.

“Estou esperançoso de que essa lei possa moralizar esse setor. Tanto motoristas quanto as empresas terão de ficar mais atentos”, comenta Natal Arnosti Jr., presidente do Setcar.

Por que eles se drogam?
A carga horária exaustiva e desumana é o principal motivo alegado pelos motoristas para o uso das drogas.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) concorda com as alegações dos motoristas, dizendo que a culpa é das empresas que os contratam, pois dão a eles prazos exageradamente apertados e desumanos, o que acaba impondo que a viagem seja feita sem pausas.

Para Natal Arnosti Jr., presidente do Setcar (Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de Araraquara e Região), há um sistema em que empresa, transportadora e o próprio motorista querem lucrar cada vez mais. “É uma das coisas erradas no País. É preciso mais fiscalização em todos os sentidos para evitar, além da sobrecarga ao motorista, mais acidentes”, diz.

Entretanto, Arnosti Jr. aponta que metade dos caminhoneiros é autônoma e faz o frete, particular, para as indústrias ou transportadoras. “O fato de ele ganhar por produção contribui para isso”, afirma.

Fonte: http://www.araraquara.com/noticias/cidades/cidades_internaNOT.aspx?idnoticia=1120690